'se se meterem contigo nunca respondas'

3.11.14

3.11.14
Já toda a gente viu este filme que circula pelas redes sociais. Já muita gente se identificou e outra tanta o condenou e ridicularizou. Afinal alguns homens apenas estão a dizer 'olá' à rapariga, não é? Pois eu concordo com o que a jornalista Fernanda Câncio escreveu nas páginas do DN e posso explicar-vos porquê.

Há muito que perdi a conta ao número de vezes que fui abordada por homens na rua com frases e gestos humilhantes e degradantes para mim enquanto criança, adolescente e mulher. Podia contar-vos muitas histórias, mas tenho a certeza que todas as raparigas que lêem este blog sabem de umas quantas. Para os homens que podem não entender bem, posso dizer-vos que em Portugal os piropos de rua são geralmente de cariz pornográfico.
E não nos ficamos apenas por palavras, há também gestos que incluem tocar em mulheres nos transportes públicos, há também o grupo de rapazes que persegue uma rapariga num local de diversão nocturna e que o que muitas vezes parece apenas uma brincadeira, por vezes se torna terror para a mulher em causa.

E o que acontece em todas estas situações? A mulher cala-se, encolhe-se envergonhada, corre e esconde-se do possível agressor. Sim, proferir palavras pode ser uma agressão.
E não diz a ninguém. Tem vergonha. Afinal, foi apenas um piropo. Não aconteceu nada. Segue as instruções de outras mulheres mais velhas que dizem: "se se meterem contigo nunca respondas".

Foi já na faculdade, a caminho da estação que passava repetidamente por um local, onde um homem, que podia ser meu avô proferia as coisas mais porcas que eu me lembro de ouvir, sempre de cariz pornográfico. Sempre que eu passava, quase todos os dias por ali. E muitas vezes mudei de rua, e muitas vezes encarei o chão fazendo de conta que não era nada comigo. E muitas vezes apanhava o comboio com a mesma sensação de enjoo. Será que aquele homem tinha família, filhas, netas?
Até ao dia. Passei. As mesmas palavras de ofensa. Encarei o chão, acelerei o passo. Parei. Respirei fundo. Voltei para trás. Dirigi-me a ele de cabeça bem erguida e bem maior do que ele. Perguntei-lhe com quem é que ele achava que estava a falar. Falei alto e com bom som. Pedi-lhe para repetir o que tinha acabado de dizer. Ameacei chamar a polícia. Todas as pessoas ouviram. Foi um momento embaraçoso. O homem fugiu com a passada de rato que o caracterizava. Eu nem sentia as minhas pernas de tão nervosa que estava.

A única pergunta que me fica na cabeça de todas estas ocasiões é: quem são estes homens? Porquê? E aos homens que lêem estas linhas e que não se identificam com a descrição que faço aqui do seu género, vocês não fazem a menor ideia do que uma mulher ouve e vê ao que ao assédio nas ruas diz respeito, porque se fizessem ficavam aterrorizados.

Escrevo isto aqui hoje, porque sou mãe de duas miúdas. A elas vou ter de lhes ensinar: "se se meterem contigo, grita!"




6 comentários

  1. É isso mesmo... grita!
    Eu também sou mãe de uma miúda e vou ensinar-lhe a gritar, nunca, mas nunca a calar!
    Bj

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  2. Não sou mãe, mas a tua atitude é que é de louvar. Encher o peito e as palavras de coragem e embaraçar, ridicularizar esses ratos que por aí andam para que pensem duas vezes antes de abrir a boca para agredir verbalmente quem quer que passe. Sim porque a liberdade de expressão tem de acabar quando interfere com a minha liberdade de passar na rua sem ser importunada com esse tipo de intervenções.

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  3. Este video é mesmo o retrato perfeito so que se passa aqui. O que mais me irrita é que estes homens foram educados por mães, por mulheres, e que raio de educação é que lhes deram para acharem que denegrir assim uma mulher é correcto?

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  4. Completamente de acordo contigo. Na vontade de passar essa mensagem à minha filha, nos episódios que passei nas ruas do Porto e no arrependimento de não ter dado uma resposta como a tua.

    E tens razão, são pornográficos mesmo.

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  5. Nunca mais me esquecerei do dia em que às 16h esperava o autocarro na paragem do Fonte Nova em Lisboa e vejo um carro encostar mesmo à minha frente. Fiquei chocada ao perceber que lá dentro estava um senhor na casa dos 70 anos a masturbar-se enquanto olhava para mim com ar lascivo.
    Não me calei! Só lhe disse: tenha vergonha, senão chamo a polícia!

    Foi o suficiente para ele arrancar com o carro...
    Fiquei profundamente nervosa, mas não me arrependo nem um minuto!
    Temos mesmo que gritar!

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  6. Percebo o que queres dizer. E sim, acho importante a denúncia. Porém, julgo que a questão pode ser mais complexa. Conto com diversas experiências em que as pessoas reagiram agressivamente à minha reação: desde insultos, a ameaças de agressão física e mesmo agressão ligeira (agarrar no braço, fincar as unhas). Recordo-me de duas situações horríveis que me deixaram aterrorizada. Ironicamente, ambas foram em espaços públicos cheios de gente. Numa das vezes, estava dentro de um hipermercado. Mas a reação dos indivíduos ao meu olhar de censura foi de tal forma agressiva que eu comecei a recear que me seguissem até ao parque de estacionamento e que concretizassem a ameaça verbal. A sensação de que se está totalmente isolada num local cheio de gente pode ser avassaladora. O que senti foi que ninguém me iria ajudar apenas por eu me queixar que alguém se meteu comigo. Lembro-me de há muitos anos, à saída do concerto de Metallica estar com uma amiga a comprar cachorros quentes. Ela foi apalpada e começou a desatinar com o indivíduo. Este, vira-se para o outro e diz: «olha para esta! Toda indignada só porque lhe apalpei o rabo». NINGUÉM fez ou sequer disse nada. Estava uma multidão à volta.
    A reação é importante sim, mas julgo que no sentido pedagógico de contrariar o que se ensina às raparigas: a "submissão e esquecimento" face às constantes agressões quotidianas. Contudo, acho fundamental ter muita prudência no discurso da promoção da reação uma vez que é muito fácil este discurso resvalar para a “obrigação” de reagir. Quantas e quantas vezes eu ouço raparigas e mulheres dizerem que não se deve criminalizar piropos porque são as raparigas que devem reagir? Que, se elas reagirem os indivíduos param e não voltam a fazer o mesmo? Estes discursos desconhecem a origem e a dinâmica do assédio no quotidiano e ignoram a incapacidade pedagógica da reação. Se, o facto de uma mulher reagir pode amedrontar alguém que assedia, esse efeito terá duração limitada. O agressor continuará a fazer o que fez e sempre fez: simplesmente, terá mais cuidado e estará mais alerta relativamente aos locais e às vítimas que escolhe. A condenação não pode ser apenas da vítima, tem de ser, acima de tudo social.

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