Há muito que perdi a conta ao número de vezes que fui abordada por homens na rua com frases e gestos humilhantes e degradantes para mim enquanto criança, adolescente e mulher. Podia contar-vos muitas histórias, mas tenho a certeza que todas as raparigas que lêem este blog sabem de umas quantas. Para os homens que podem não entender bem, posso dizer-vos que em Portugal os piropos de rua são geralmente de cariz pornográfico.
E não nos ficamos apenas por palavras, há também gestos que incluem tocar em mulheres nos transportes públicos, há também o grupo de rapazes que persegue uma rapariga num local de diversão nocturna e que o que muitas vezes parece apenas uma brincadeira, por vezes se torna terror para a mulher em causa.
E o que acontece em todas estas situações? A mulher cala-se, encolhe-se envergonhada, corre e esconde-se do possível agressor. Sim, proferir palavras pode ser uma agressão.
E não diz a ninguém. Tem vergonha. Afinal, foi apenas um piropo. Não aconteceu nada. Segue as instruções de outras mulheres mais velhas que dizem: "se se meterem contigo nunca respondas".
Foi já na faculdade, a caminho da estação que passava repetidamente por um local, onde um homem, que podia ser meu avô proferia as coisas mais porcas que eu me lembro de ouvir, sempre de cariz pornográfico. Sempre que eu passava, quase todos os dias por ali. E muitas vezes mudei de rua, e muitas vezes encarei o chão fazendo de conta que não era nada comigo. E muitas vezes apanhava o comboio com a mesma sensação de enjoo. Será que aquele homem tinha família, filhas, netas?
Até ao dia. Passei. As mesmas palavras de ofensa. Encarei o chão, acelerei o passo. Parei. Respirei fundo. Voltei para trás. Dirigi-me a ele de cabeça bem erguida e bem maior do que ele. Perguntei-lhe com quem é que ele achava que estava a falar. Falei alto e com bom som. Pedi-lhe para repetir o que tinha acabado de dizer. Ameacei chamar a polícia. Todas as pessoas ouviram. Foi um momento embaraçoso. O homem fugiu com a passada de rato que o caracterizava. Eu nem sentia as minhas pernas de tão nervosa que estava.
A única pergunta que me fica na cabeça de todas estas ocasiões é: quem são estes homens? Porquê? E aos homens que lêem estas linhas e que não se identificam com a descrição que faço aqui do seu género, vocês não fazem a menor ideia do que uma mulher ouve e vê ao que ao assédio nas ruas diz respeito, porque se fizessem ficavam aterrorizados.
Escrevo isto aqui hoje, porque sou mãe de duas miúdas. A elas vou ter de lhes ensinar: "se se meterem contigo, grita!"


















