o passado presente

6.6.12

6.6.12
grandma love comes in colors
 
Quando visito a casa da minha avó venho recheada de amor em forma de flores, legumes, ovos e outras coisas bonitas, saborosas e boas. A minha avó já tem 85 anos e mantém a sua casa e terreno com todo o tipo de géneros alimentícios desde os legumes aos animais. Na casa dela sempre assisti a uma vida que se fazia quase ausente de dinheiro e compras de coisas. Tudo, ou quase tudo que se comia era plantado e criado, o que se vestia era feito e o resto...bem, não havia muito resto, porque a vida era assim mesmo, acordar, trabalhar na terra e com os animais, cozinhar, criar, dormir. Não havia ambição de mais, mas também não havia a preocupação com o menos.

E esta realidade ainda existe, está lá, para mim é uma coisa normal. E com esta realidade vêm muitas outras coisas que hoje são denominadas de tradicional, típico, modo de vida português, que de repente dá a sensação que está escondido em aldeias remotas de Portugal, mas não está, está em quase todo o lado que não seja Lisboa e Porto, mas como parece que Portugal existe apenas nestes sítios, tudo o resto se torna paisagem.

Está na moda este ser Português gourmet. O tradicional está na moda. Os produtos característicos portugueses estão na moda. Parece-me uma boa moda, sem dúvida, só que às vezes dá a sensação que se transforma algo tão normal e nosso num objecto de culto que adquirimos para relembrar uma vida fora do nosso alcance. E isso não é verdade. Esta vida é nossa, as galinhas de louça e os ditados portugueses em azulejo ainda estão nas nossas casas. O crochet povoa muita habitação portuguesa e o galo de Barcelos não é um elemento estranho para quase ninguém.
Parece que de vez em quando há uma meia dúzia de iluminados que decide intelectualizar coisas e hábitos nossos como sendo uma 'tradição' e de repente, aquilo que nos era normal e próximo torna-se objecto de estudo e de museu e de umas quantas recriações artísticas. Eu acho que pessoas como as minhas avós haviam de se rir muito de muita coisa que por aí anda. É que Portugal não é esse dos livros e das tradições, Portugal é a terra que fica a escassos Km da cidade, que não tem uma traça arquitectónica marcante, que tem um Pingo Doce mesmo ao lado e na qual a maioria das pessoas nunca pôs os pés numa Zara nem faz a menor ideia ao que sabem as comidas pré cozinhadas.

A tradição ainda é o que é.

8 comentários

  1. excelente seu texto.

    ResponderEliminar
  2. Concordo, em parte, como também tive tudo isso desde sempre ao meu alcance, sinto-o com naturalidade, já me faz confusão quem apenas agora reparou em "certas coisas" e de repente começou a valorizar o tradicional, sem mesmo saber muito bem o que isso é. Não me agrada que o que é português esteja na ribalta, que se privilegie o manufacturado, e façam renascer tradições porque é moda e apenas isso, é que as modas vêm e vão...

    ResponderEliminar
  3. Eu sou serrana com orgulho, cresci no meio disso tudo, e não me sinto atrasada por isso. Aliás fico espantada é quando tenho que explicar a muitos colegas da cidade como se semeiam batatas!

    ResponderEliminar
  4. Mais uma vez a sua escrita foi apelativa e verdadeira! Adoro ler os seus textos!

    ResponderEliminar
  5. "Não havia ambição de mais, mas também não havia a preocupação com o menos."
    Quando a ambição se torna desmedida... estraga tudo! Viver com simplicidade parece-me a melhor solução! ;)

    ResponderEliminar
  6. Podes crer, pá!


    p

    ResponderEliminar
  7. E é tão boa essa tradição!! Acho que uma coisa boa que esta famosa crise trouxe foi um bocado o regresso às origens, ao lar... As pessoas voltam a dar valor ao que é feito em casa, ao artesanal e para mim isso é muito bom! Claro que há sempre quem se aproveite disso, os tais iluminados que falas, mas no geral eu acho que os pontos positivos vencem!! :)

    Beijinhos,
    Leonor

    ResponderEliminar
  8. Luisa Francisco12:50 da tarde

    Silvia, embora não te conheça pessoalmente, gosto de ler o teu blog..És verdadeira naquilo que transmites, também venho do campo, e para o campo vou voltar, embora a minha vida me prenda á cidade, é no campo que sou feliz.
    Não deixo de concordar contigo de haver agora algumas pessoas a aproveitarem-se para fazer gourmet, quando as coisas sempre ali estiveram e estão.
    Mas o que me entristece, é que todos falam em tradição, preservar o que é nosso, mas as aldeias estão a ficar despovoadas, e os campos de cultivo cheios de silvas.
    Afinal onde está a preservação?

    ResponderEliminar