esta fotografia não é para meninos...

18.11.11

18.11.11
enquanto andamos nós, bloggers catitas com filhos fofinhos, de máquina em punho pela cidade, a captar as belas fachadas das casas abandonadas e das portas de madeira com os pormenores de arte nova, a pensar em projectos decorativos para espaços urbanos, a gravar as lindas cores do típico modo de vida português, e a pensar como tudo fica tão bem dentro da nossa caixa nikon/cannon e através da nossa lente em modo automático, há por aí outras pessoas, a fazer outras coisas...
com outras pessoas quero dizer fotógrafos, investigadores, mergulhadores na realidade profunda do nosso país. pessoas que não tiram fotografias, acrescentam-nos olhos na cara e neurónios na cabeça. arrepio-me ao ver estas imagens. emociono-me ao pensar nestas vidas. sinto o frio na espinha e a humidade nos ossos. porra pá, esta fotografia não é para meninos.
parabéns ao paulo pimenta e ao josé antónio pinto que nos levam numa viagem pela vida. mas não é a cores, porque aqui, elas não acrescentam nada.

(todas as fotos da autoria de paulo pimenta, retiradas do blog paulo pimenta diários. o texto que se segue é da autoria de patrícia carvalho)


exposição 'na casa de...' - inauguração na fnac do gaia shopping no dia 19 novembro 2011 , às 18.30

[ver vídeo de apresentação]

"Exposição NA CASA DE
Que todas as portas se abram

Há pessoas assim. Capazes de se entregar, durante um ano, a um projecto que — sabem-no — lhes trará uma dor incomensurável ao corpo e à alma. Mas que sabem também que ignorar o que está para lá das fachadas de um casario aparentemente arrumado, virar a cara para o lado e fingir que nada se vê, significaria viver com uma dor infinitamente maior. Por isso, insistem. Empurram portas e saltam muros, abrem janelas e espreitam buracos na pedras. E fazem com que todas as portas se abram, para que nenhum de nós possa dizer, eu não sabia de nada. Eu não vi. Ninguém me avisou. Há pessoas como o Paulo Pimenta e o José António Pinto. Capazes de se comprometerem. Capazes de se entusiasmarem um ao outro na busca do que tem de ser mostrado e empenharem-se para, cada um com a sua arma — o primeiro com a máquina fotográfica, o segundo com a experiência do assistente social —, mudarem um bocadinho, por mais pequeno que seja, da miséria que testemunham. O Paulo recorda que uma amiga costuma dizer-lhe que sabe que não pode mudar o mundo, mas que todos devemos fazer o possível para mudar nem que seja uma vírgula. E ele vai atrás dessa vírgula. De muitas vírgulas. E foi assim, por causa de pessoas como o Paulo e o José António, que durante um ano, Laurinda, Albino, Juliana ou Delfim abriram as portas das suas casas de tristeza, as casas pobres e húmidas que queriam trocar por outras, claras e seguras, mas que são ainda as suas casas. O seu tecto sobre a cabeça. O resultado é um conjunto de imagens e histórias tocantes, que nos mostram tudo sem nunca chegarem a ser intrusivas. Apetece-nos chorar pela fragilidade que imaginamos por trás de uma camisa estendida a secar ou pelo corpo cansado estendido entre lençóis de uma cama demasiado desamparada, encostada a uma parede que se adivinha fria e escorregadia de chuva nos dias de Inverno. Queremos ter esperança, pelos pés de criança que despontam atrás de uma Hello Kitty de vestido de folhos. E quase pedimos para poder partilhar a fé de quem espalha santos e virgens por sítios improváveis. As pessoas habituam-se a tudo. Habituam-se a chamar casa a barracas insalubres. Às gretas nas paredes. Às manchas negras da humidade. A dormirem no chão da cozinha para que os filhos tenham uma cama. Aos fios eléctricos descarnados que se cruzam com a mesa do jantar. À solidão sem palavras. Às vezes, é isso que mais dói. Quando um velho de 80 anos se habituou ao que não devia. A chamar casa ao que não devia ser uma casa. E fica uma raiva imensa, quando chegados aí, quem podia roubar-lhes esse hábito triste e dar-lhes uns dias melhores, não chega a tempo. Felizmente, há pessoas como o Paulo e o José António. E exposições como esta, de onde ninguém sai incólume. E ainda bem que assim é."

Patrícia Carvalho

3 comentários

  1. mar.peçasoltas9:07 da manhã

    Excelente projecto e excelente texto. Impossivel ficar indiferente!

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  2. É a outra face da fotografia, aquela que não é cor de rosa, aquela que nos dá uma bofetada na cara. Era bom que mudasse alguma coisa na vida das pessoas retratadas. Nem é preciso procurar muito para encontrar esta realidade mesmo ao nosso lado.

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  3. adoro o trabalho do paulo pimenta.
    que fotos excelentes.
    mas que a visão destas vidas tão próximas de nós não nos faça sentir ridículos com as nossas canon e filhos fofinhos mas sim agradecidos por não ser esta a nossa realidade e conscientes de que poderia muito bem ser outra.

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