até já

10.6.14

10.6.14
até jáaté jáaté jáaté já A minha avó morreu.

Para mim dizer 'até já' à minha avó de 87 anos, não foi apenas a dor da despedida de alguém que amo com todo o meu coração e que viveu a vida como poucas pessoas que eu conheço, mas sim o fechar de um ciclo.

Na minha família tudo se inverteu, os filhos morreram primeiro do que os pais. Por isso para nós as avós são a âncora que indica de onde nós vimos, quem somos, qual o som e o cheiro das nossas casas, a comida que gostamos, o trato que aprendemos. São elas que nos ligam à nossa essência para que a vida não nos confunda mais do que já fez.
Fechar este ciclo é a certeza de que as poucas memórias que tenho, são agora de cada vez menos pessoas e que o meu futuro só é vigiado pelos que me amam numa outra dimensão diferente da minha.
Aqui, resta-me vigiar o futuro dos meus, reforçar os laços que ficam, fazer crescer o que ainda é pequeno e ter sempre a certeza que o meu caminho tem de ser feito por mim. Eles sabem que nós estamos aqui, olham por nós tenho a certeza, cuidam de nós. Mas a mim, faz-me falta o cheiro, o toque, o som da voz, o cuidado por quem nos quer mais e melhor do que qualquer pessoa.

Da minha avó levo um exemplo que nunca serei capaz de alcançar, uma vida autónoma e auto suficiente até ao fim dos seus dias, morrer a fazer o que mais se gosta, não se lembrar do que é chorar, saber viver para os outros, para a natureza, levar o passar dos dias com a cadência do sol, dos animais e das plantas. Ela não precisava de dinheiro, não tinha ambições de ser outra coisa que não a que era, nunca a ouvi falar mal de alguém ou desdenhar o que quer que seja, nunca ouvi da sua boca a palavra morte ou velhice, a vida era o que era e ela encaixava na perfeição no meio da sua terra, das flores e dos animais, ali tudo tinha um sítio, ali o mundo era perfeito, era o mundo dela e felizmente um pouco também do nosso.

Graças a ela sei como as plantas crescem e sei que a vida se pode fazer apenas trabalhando e trocando aquilo que as nossas mãos produzem, sei o que é beber malgas de café e comer pratos de aletria, sei que uma casa se quer apenas com o essencial e que tudo o resto 'só consome'. A riqueza está em nós e naqueles que nos amam. A vida é isto. E é uma boa vida.

O amor é maior do que tudo.

Até já avó, vemo-nos do outro lado.

41 comentários

  1. Amiga, força e um abraço bem forte.

    O amor é isso mesmo. Mesmo.

    Beijo

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    1. Obrigada Pedro, um beijo para vocês também.

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  2. Que palavras tão mas tão bonitas.
    de certeza que a tua avó deve sentir um enorme orgulho em ti assim como tu sentes dela.
    Custa tanto perder as pessoas que amamos ...
    Força

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    1. As palavras escritas às vezes explicam as coisas muito melhor do que as faladas...
      Obrigada

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  3. Um Beijinho repleto de carinho.

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  4. Um beijinho e um abraço sentido! Força.

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  5. Um grande abraço, Silvia. Obrigada por nos falares da tua avó. Um belissimo exemplo.

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    1. Obrigada eu Luísa, pelo carinho das pessoas que por aqui passam...

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  6. Silvia, muito bonito o que escreveste! um beijinho grande para ti***

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  7. oohh Silvia, um beijinho grande para ti!

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  8. Que palavras tão bonitas que encontraste para escrever aqui. Um grande beijinho.

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    1. Filipa, este espaço por vezes também me salva:)

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  9. Oh, a tua avó que eu conheci no ano passado? Uma senhora super simpática foi o que vi naquele breve contacto.
    Um abraço amiga

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    1. Não é a do Algarve Sandra, é a outra.
      Obrigada. bjs

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  10. Uma homenagem linda e muito emotiva. Soubeste explicar o que já senti, mas nunca soube verbalizar: que com a partida dos nossos ascendentes se vão uma data de memórias, algumas que nunca chegaremos a saber. E que de repente as memórias, somos nós. Nós ficamos com esse papel. Sinto muito. Beijo.

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    1. Obrigada Val, também escrevo aqui para poder verbalizar coisas para mim própria que por vezes me são difíceis, fico contente que outros se identifiquem também.

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  11. Que olhar bonito que tens, é bom ler-te. Eu perdi a minha avó pouco depois de ter sido mãe pela primeira vez, foi uma dor grande mas que o facto de ter tido a Rita ajudou-me a aceitar, a perceber, a encaixar. Foi há 14 anos e ainda hoje penso nela quase todos os dias, é uma ausência constante na minha vida, na minha alma, no meu coração. É tão serena e tranquila esta tua partilha... tens uma forma de olhar a vida muito bonita. Abraço Sílvia.

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    1. Obrigada Alexandra, abraço para vocês

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  12. Sei tão bem o que sentes. Um abraço grande.

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  13. Sílvia, que exemplo de vida! A nossa geração teria muito a aprender com a tua avó (falo por mim, pelo menos)... "a vida era o que era e ela encaixava na perfeição no meio da sua terra, das flores e dos animais, ali tudo tinha um sítio, ali o mundo era perfeito, era o mundo dela e felizmente um pouco também do nosso." É a isso que aspiro. Um grande beijinho para ti.

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    1. Todos desejamos algo assim, mas é tão difícil viver assim nos nossos dias...

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  14. Olá Sílvia:

    Desta vez, não deu para te ler e ir embora. Já te falei dessa minha timidez ocasional. Mas desta vez não deu para isso da timidez e quis escrever. Para agradecer o teu texto. As imagens.
    É bem difícil dizer a perda, a ausência. Falar do que esteve e já não está. Neste caso, de quem esteve. O ponto é que as existências se prolongam. Não há volta a dar. A tua avó prolonga-se. Nesse legado que vos deixou. Nessa janela, nas flores todas misturadas, na terra de que cuidou. E nas coisas todas que deixou em ti. As que já aprendeste e as que vais aprender, ainda. A vida é assim mesmo. Pode ser um lugar bem estranho, às vezes. Mas as pessoas e os lastros que deixam, podem salvar.
    Tiveste a dádiva de uma avó bem especial. E isso é muito lindo.

    Um abraço grande.

    Mar

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    1. Obrigada Mar, as tuas palavras são sempre tão bonitas:) abraços.

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  15. Um grande beijinho Sílvia...
    Há pessoas que nunca nos deixam mesmo que não estejam ao nosso lado.

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  16. Um abraço, Sílvia.
    Tão tocantes essas palavras, essas imagens, as flores, o canto da janela, o que continua depois da partida.
    Sei bem o que é isso, de ir perdendo as referências anteriores e sentir que o bastão foi passado a nós.
    De novo, um abraço, o amor não morre.

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  17. Linda homenagem, Sílvia. Obrigada por nos dares a conhecer um pouco da tua avó, uma mulher maravilhosa.

    Beijinhos,
    Marta

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  18. Para quê Mestres, Deuses, Santos ou outros que se enaltecem cegamente e nos privam de descobrir na vida de um ser humano o que há de mais essencial, puro e mágico. Há pessoas que não são deste mundo mas que passam por cá para que outros possam aprender com elas, sem a pretensão do Mestre, a adoração do Deus ou a devoção do Santo. Tudo o que disseste da tua avó, é o fruto da passagem dela por cá. Quem sabe reconhecer o lugar a que pertence e faz da aceitação não um acto de comiseração mas um júbilo da vida - é um simples santo!
    Que deixou uma linda semente...

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  19. Este texto emociona-me.
    Um grande beijinho.

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  20. lamento muito Sílvia, não raras vezes recordo-me das rendas de musica da tua avó... achei uma parceria fabulosa e encantou-me a beleza do seu trabalho... uma alma e umas mãos assim, são uma perda imensa... isto é a vida, por aqui tb se inverteu a ordem dos acontecimentos e a minha avó tb é o meu porto seguro... ainda assim somos umas privilegiadas por testemunhar a força e saber destas mulheres... e um dia acredito que isso sobressairá em nós. Beijinho

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    1. Olá Ana, não é essa avó, é a outra. Beijos para ti e obrigada pelas palavras simpáticas.

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  21. Há umas semanas confessaste como lidas mal com o cancro, porque esse cabrão te levou os pais. Nesse dia a minha mãe estava no hospital a lutar contra ele. Hoje escreves sobre a tua avó e descreves uma mulher como não há igual, uma descrição que em grande parte corresponde à da minha mãe. A minha mãe morreu há 3 semanas... mas eu também sinto que eles continuam connosco, a olhar por nós. O seu exemplo enche-nos de orgulho e inspiração. É isso que nos faz chorar mas que ao mesmo tempo nos dá força para sermos e fazermos o nosso melhor. Um grande beijinho para ti Sílvia.

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    1. Olá Marta. Como te compreendo, ou como nos compreendemos, não é? Força!

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