pratica o desapego

21.8.14

21.8.14
Era talvez a jarra mais bonita do mundo:(
Pratica o desapego é uma tag que vejo muitas vezes no instagram da Isabel.
E ultimamente é uma expressão que não me sai da cabeça.

De entre as muitas coisas que preciso de mudar na minha vida, o desapego é uma delas. Livrar-me de tudo o que não me faz falta e simplificar a minha casa e o trabalho é neste momento urgente.

Nesta fase que ainda não sei bem até que ponto me devo ou não esforçar por causa da trombose, estou reticente em começar grandes arrumações que depois posso não ser capaz de acabar, mas exactamente por isso resolvi começar pequeno, gavetas, casas de banho, carteiras, etc.

Esta jarra é a prova viva da minha dificuldade em lidar com o desapego. Estava na minha casa do Algarve, literalmente toda partida, porque um dia a minha mãe a deixou cair. Ela achava esta jarra lindíssima e passou vários dias a colar cada uma das suas peças até ficar assim. Já se passaram bem mais de 10 anos (15? 20?) desde esse episódio e eu guardei-a dentro de um armário para um dia qualquer pensar sobre isso. Como a minha mãe morreu comecei a achar que olhar para a jarra partida e lembrar-me do episódio me iria sempre fazer lembrar dela. E faz. Mas não é pela jarra que me lembro dela. É porque é a minha mãe.

Este ano peguei nela e vi que se estava literalmente a desfazer e por isso decidi que tinha de ir para o lixo. Decidi. Estava decidido. Mas não foi.
Está agora na garagem.

Comecei a ler o blog da Rita, o 'the busy woman and stripy cat' no sentido de ir lendo alguns posts sobre o destralhamento, devagar, de forma a inspirar-me e organizar-me no meu processo.

Até que hoje leio este post e este texto:

"Em relação a coisas com forte carga emocional, este texto do Joshua Fields Millburn diz tudo. A sério, se estão à vontade com o inglês, leiam o texto.
Resumidamente, a mãe do Joshua morreu e ele ficou encarregue de vazar o seu apartamento. Alugou uma daquelas unidades de armazenamento e uma carrinha para guardar todos os pertences da mãe, caso um dia ele precisasse de alguma coisa ou precisasse de ter acesso às coisas por algum motivo.
No apartamento começou a arrumar as coisas da mãe em caixas. Até que olhou para debaixo da cama, atulhada com caixas de cartão seladas. Abriu uma das caixas e no seu interior estavam cadernos dos primeiros 5 anos de escola do Joshua. A mãe do Joshua tinha guardado todas essas coisas para se lembrar do seu filho e tê-lo mais perto de si. Mas era evidente que as caixas com as tais coisas que a fariam recordar o seu filho não eram abertas há muitos, muitos anos. Porque não é nas coisas que estão as recordações - é dentro de nós.
O Joshua apercebeu-se então que não precisava das coisas da mãe para se lembrar dela, tal como a mãe nunca precisou de abrir as caixas seladas para recordar o filho.
O Joshua cancelou a carrinha e a unidade de armazenamento e doou as coisas da mãe para poderem ser úteis a outras pessoas.

As lições que ele aprendeu:

- Não são as coisas que temos que definem quem somos.

- As nossas memórias não estão debaixo da cama. Estão dentro de nós, não nas nossas coisas.

- Um coisa que tem apenas valor sentimental para mim poder ser útil para outra pessoa.


- O apego às coisas tem uma forte carga mental e emocional. O desapego, por outro lado, é libertador."

Para mim não é difícil arrumar as coisas do dia-a-dia, limpei a casa de banho de coisas que não estavam lá a fazer nada em menos de meia hora.
O que é difícil para mim, são as coisas que eram dos outros, da minha infância, do meu passado que já não existe e que acho que se me agarrar a certas coisas ele pode voltar na minha cabeça e se não tiver essas coisas fico sem nada, sem memórias, sem passado.

Eu sei que não é verdade. Este post ajuda-me a colocar as ideias em ordem. Escrever aqui para vocês é como escrever para mim própria. As coisas ganham outra lógica e verdade quando escritas.

Hoje faz sete anos que a minha mãe morreu. Não abro a arca com as coisas dela desde então, não visito cemitérios, não rezo nem acendo velas.
Lembro-me dela todos os dias e não preciso de olhar para nenhum objecto.

9 comentários

  1. O desapego é um processo muito difícil. A relação com as coisas faz parte do ser humano, atribuímos valor simbólico aos objectos e temos que aceitar isso. Aceitando isso ficamos prontos para dar o passo seguinte, que é livrarmo-nos do que nos está a pesar. E é mesmo assim que se começa: pelas gavetas da cozinha, da casa de banho. A cozinha foi o primeiro espaço que arrumei e mesmo assim custou-me, porque tinha há anos coisas que achava que ia precisar. Primeiro, tive que assumir que não ia nunca ter o estilo de vida que pensava que teria quando as adquiri. Até ao arrumar armário de cozinha temos que passar por epifanias dolorosas. Dolorosas primeiro, depois é só alívio. Dois anos depois de ter começado, ainda dou por mim a passar por desapegos que demoram. Debati-me muito tempo com objectos - alguns foram, outros ficaram. Li não sei onde que devemos ficar com as coisas que são úteis ou nos dizem muito. Não vou fazer qualquer juízo sobre se deves ou não ficar com essa jarra. Daqui a uns tempos, serás capaz de tomar uma decisão. O que sei dizer é que o alívio do desapego é uma sensação muito boa. E se é boa é porque fizemos a coisa certa. As coisas não definem quem somos, mas há coisas que gostamos de ter por perto, não há mal nenhum nisso. O que é preciso é perceber quais são elas, entre tantas coisas que acumulamos, guardamos, mantemos. Força nesse percurso, tenho a certeza que vai correr bem. Escrever sobre isso ajuda mesmo, eu bem sei! Beijinhos

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  2. Que texto tão bonito. Parabéns. Emocionou-me.

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  3. Já sigo o blog da Rita há algum tempo e, numa atitude ainda muito 'de aprendiz', espero fazer da prática do desapego o meu modo de estar na vida. Temos de perceber que, sendo uma prática, não se conquista de um momento para o outro nem de uma forma brusca. Precisamos de tomar consciência plena do que é ou não importante, de forma emocional, e essa é a tarefa mais difícil. Não se consegue do nada, aprende-se, constrói-se a passos curtos.

    Podemos também ficar apegados a alguma(s) coisa(s). Não faz de nós 'guardadores' mais ou menos obsessivos. E aqui incluo não só os objectos, as coisas materiais, mas também o gigante mundo de relações pessoais a que nos ligamos de forma às vezes descontrolada e das quais sentimos dificuldade de nos desapegar, mesmo sabendo que já não são importantes para nós. Deixo aqui um texto que poderás gostar de ler e que explica isso mesmo: http://asnovenomeublogue.clix.pt/2014/08/do-sentido-das-coisas.html

    A história que partilhaste é absolutamente comovente e esclarecedora da prática do desapego, sobretudo quando esta mexe com memórias de pessoas que já não estão entre nós. Dói, mas faz parte da viagem.


    Espero que corra tudo pelo melhor, Sílvia. Um passo de cada vez, tanto na recuperação como na procura pelo desapego.
    Um beijinho!

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  4. Pois! É um facto que custa imenso deitar as coisas, que nos tocam emocionalmente, no lixo. Chamem-me maluca, mas agora adoptei uma forma de tornar o processo menos difícil: fotografo antes, deito no lixo depois. Do meu primeiro filho guardei praticamente tudo do primeiro ciclo… do segundo guardei algumas coisas. Agora com o terceiro filho a entrar no primeiro ano e com a mais pequenina a caminho dos 2 anos, apercebi-me (do que já era óbvio há muito tempo) de que não posso continuar a guardar. Guardo um ou outro desenho que sobressaia, uma ou outra composição (gosto de ler o que escrevem sobre a família, as férias, o Natal…), e fotografo alguns trabalhos, a parte da frente dos teste (com as notas ;) e pouco mais. E assim ficam algumas coisas armazenadas, com o prazo de vida um bocadinho mais estendido, mas a ocupar espaço digital, não físico!

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  5. Olá. A minha mãe também morreu em 2007, desde então o processo de me desfazer das coisas dela [nossas] tem sido longo e difícil, incluindo três viagens intercontinentais e a venda da casa onde passei grande parte da minha vida. Tudo parece ter carga sentimental, tudo, principalmente porque há objetos de outras pessoas que já se foram. O que a Sara Gomes disse que faz é o que muitos aconselham a fazer - tirar fotos. Eu guardei um pouco de tudo, mas bem pouco em proporção a tudo, um ou dois brinquedos da infância, tentei eleger o que fosse mais emblemático, mas ainda sinto pontadas de dor ao me lembrar de coisas que queria ter passado à minha filha, por exemplo. Mas, no fundo, fundo, sei que é bem isso - os objetos trazem lembranças, mas não quem se foi de volta. E a minha filha tem as coisas dela e todas as minhas e as do pai e dos avós paternos, ou seja - é muita coisa. Racionalmente sei de tudo isso, mas o desapego é mesmo o meu maior desafio. Sempre é bom ler textos assim, sinto-me menos neurótica e sozinha com essa angústia.
    Um beijo!

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  6. Sílvia, primeiro que tudo não sabia que estavas com esse problema, desde já te desejo as melhoras, mas visto dares a parecer esta mulher cheia de força, tenho a certeza que vais dar a volta por cima. Além disso, cada vez mais pratico o desapego, principalmente em coisas como roupas, ou calçado. Não me interesso pelas coisas e acabo sempre por achar que tenho de mais. Vou cuscar agora os links que por aqui deixaste. Um beijinho.

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  7. Olá Sílvia, já cá vim várias vezes ler este teu texto e o da Rita. A minha mãe já partiu há 15 anos, e embora já tenha conseguido dar várias coisas que lhe pertenciam, outras continuam lá em casa, quase como esqueletos nos armários. Como tu, lembro-me dela todos os dias, portanto não preciso de guardar nada que tenha sido dela. Mas enfim, lá estão...Vou pensar muito a sério em tudo que aqui li. Beijinhos e continuação da melhoras.

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  8. ler o teu texto e os restantes comentários é uma espécie de terapia para o que me aguarda...
    a minha mãe faleceu há 3 anos e o meu pai em breve vai mudar de casa. É esperado que eu ajude a empacotar tudo aquilo que me parece intocável... para começar vou pensando que necessito de uma pedra no lugar do coração e de uma overdose de apatia para não sucumbir à dor...

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