
Pratica o desapego é uma tag que vejo muitas vezes no instagram da
Isabel.
E ultimamente é uma expressão que não me sai da cabeça.
De entre as muitas coisas que preciso de mudar na minha vida, o desapego é uma delas. Livrar-me de tudo o que não me faz falta e simplificar a minha casa e o trabalho é neste momento urgente.
Nesta fase que ainda não sei bem até que ponto me devo ou não esforçar por causa da trombose, estou reticente em começar grandes arrumações que depois posso não ser capaz de acabar, mas exactamente por isso resolvi começar pequeno, gavetas, casas de banho, carteiras, etc.
Esta jarra é a prova viva da minha dificuldade em lidar com o desapego. Estava na minha casa do Algarve, literalmente toda partida, porque um dia a minha mãe a deixou cair. Ela achava esta jarra lindíssima e passou vários dias a colar cada uma das suas peças até ficar assim. Já se passaram bem mais de 10 anos (15? 20?) desde esse episódio e eu guardei-a dentro de um armário para um dia qualquer pensar sobre isso. Como a minha mãe morreu comecei a achar que olhar para a jarra partida e lembrar-me do episódio me iria sempre fazer lembrar dela. E faz. Mas não é pela jarra que me lembro dela. É porque é a minha mãe.
Este ano peguei nela e vi que se estava literalmente a desfazer e por isso decidi que tinha de ir para o lixo. Decidi. Estava decidido. Mas não foi.
Está agora na garagem.
Comecei a ler o blog da Rita, o '
the busy woman and stripy cat' no sentido de ir lendo alguns posts sobre o destralhamento, devagar, de forma a inspirar-me e organizar-me no meu processo.
Até que hoje leio este
post e este texto:
Resumidamente, a mãe do Joshua morreu e ele ficou encarregue de vazar o seu apartamento. Alugou uma daquelas unidades de armazenamento e uma carrinha para guardar todos os pertences da mãe, caso um dia ele precisasse de alguma coisa ou precisasse de ter acesso às coisas por algum motivo.
No apartamento começou a arrumar as coisas da mãe em caixas. Até que olhou para debaixo da cama, atulhada com caixas de cartão seladas. Abriu uma das caixas e no seu interior estavam cadernos dos primeiros 5 anos de escola do Joshua. A mãe do Joshua tinha guardado todas essas coisas para se lembrar do seu filho e tê-lo mais perto de si. Mas era evidente que as caixas com as tais coisas que a fariam recordar o seu filho não eram abertas há muitos, muitos anos. Porque não é nas coisas que estão as recordações - é dentro de nós.
O Joshua apercebeu-se então que não precisava das coisas da mãe para se lembrar dela, tal como a mãe nunca precisou de abrir as caixas seladas para recordar o filho.
O Joshua cancelou a carrinha e a unidade de armazenamento e doou as coisas da mãe para poderem ser úteis a outras pessoas.
As lições que ele aprendeu:
- Não são as coisas que temos que definem quem somos.
- As nossas memórias não estão debaixo da cama. Estão dentro de nós, não nas nossas coisas.
- Um coisa que tem apenas valor sentimental para mim poder ser útil para outra pessoa.
- O apego às coisas tem uma forte carga mental e emocional. O desapego, por outro lado, é libertador."
Para mim não é difícil arrumar as coisas do dia-a-dia, limpei a casa de banho de coisas que não estavam lá a fazer nada em menos de meia hora.
O que é difícil para mim, são as coisas que eram dos outros, da minha infância, do meu passado que já não existe e que acho que se me agarrar a certas coisas ele pode voltar na minha cabeça e se não tiver essas coisas fico sem nada, sem memórias, sem passado.
Eu sei que não é verdade. Este post ajuda-me a colocar as ideias em ordem. Escrever aqui para vocês é como escrever para mim própria. As coisas ganham outra lógica e verdade quando escritas.
Hoje faz sete anos que a minha mãe morreu. Não abro a arca com as coisas dela desde então, não visito cemitérios, não rezo nem acendo velas.
Lembro-me dela todos os dias e não preciso de olhar para nenhum objecto.